
O Campeonato do Mundo está a revelar uma realidade que Cabo Verde conhece há muito tempo e que agora o mundo, finalmente, começa a descobrir, que somos uma Nação muito maior do que o nosso território.
De Boston a Brockton, de Nova Iorque a Providence, de Lisboa a Paris, de Roterdão ao Luxemburgo, das ilhas à diáspora espalhada pelos cinco continentes, milhões de cabo-verdianos vivem cada jogo como se estivessem sentados na mesma bancada.
Durante estas semanas desaparecem os oceanos, encurtam-se as distâncias e suspendem-se as fronteiras. Resta apenas um país unido pela mesma bandeira, pela mesma emoção e pelo mesmo sonho.
Nos Estados Unidos, palco deste Campeonato do Mundo, vive-se um ambiente difícil de descrever por palavras. Muito antes do início dos jogos, as cidades que acolhem a nossa Seleção transformam-se em autênticos pontos de encontro da “cabo-verdianidade". Restaurantes, hotéis, ruas, cafés e espaços comunitários enchem-se de famílias, de crianças, de emigrantes de primeira, segunda e terceira geração que encontram, no futebol, uma oportunidade para voltar a sentir Cabo Verde perto de casa.
E quando chegamos aos estádios assistimos a algo verdadeiramente extraordinário. As bancadas vestem-se de azul, as bandeiras multiplicam-se, os cânticos são de apoio à Seleção e de saudade, eo crioulo mistura-se com o inglês, o francês, o português e o neerlandês numa demonstração única de identidade, orgulho e pertença, que não se esgota no nosso povo. Cabo Verde conquistou quem assiste ao mundial e quem observa de fora percebe rapidamente que não está apenas perante adeptos de futebol, está perante um povo inteiro que encontrou naquele momento uma forma de celebrar as suas raízes.
A Fundação Carlos Albertino Veiga teve o privilégio de acompanhar parte desta caminhada ao lado da Federação Cabo-verdiana de Futebol, apoiando a preparação logística da presença da Seleção nos Estados Unidos e testemunhando, no terreno, a extraordinária mobilização da nossa diáspora. Foi impossível ficar indiferente à emoção dos reencontros, aos abraços, às lágrimas e ao orgulho com que milhares de cabo-verdianos receberam a equipa nacional.
Mais do que apoiar uma Seleção, a diáspora está a mostrar ao mundo a força de uma identidade que atravessa oceanos e permanece intacta geração após geração. Há crianças nascidas longe das ilhas que cantam o hino nacional sem nunca terem vivido em Cabo Verde. Há jovens que vestem a camisola azul com o mesmo orgulho dos seus pais e avós. Há famílias inteiras que transportam consigo a memória das ilhas, a língua, a música, os sabores e a saudade, provando que a distância nunca foi suficiente para quebrar aquilo que verdadeiramente nos une.
Poucos países podem afirmar possuir uma comunidade tão presente, tão organizada e tão profundamente ligada às suas origens, e essa continua a ser uma das maiores riquezas nacionais.
Talvez tenha sido esse um dos maiores ensinamentos deste Mundial, ao re-afirmarmos que Cabo Verde não termina nas suas fronteiras geográficas. Vive em cada cabo-verdiano que, onde quer que esteja, continua a levar consigo o nome, a cultura e a esperança de um país inteiro.



