
“Post fata resurgo” (“Depois da adversidade, ergo-me novamente.”), esta expressão em latim associada à figura mitológica Fenix, relembra-nos que, muitas vezes um povo não nasce das suas conquistas, mas da forma como consegue permanecer de pé quando tudo parece desabar à sua volta.
Este mês, Cabo Verde foi atingido por uma tragédia que ficará para sempre na nossa memória coletiva. Vinte e cinco vidas perdidas, famílias mergulhadas numa dor impossível de medir e comunidades inteiras confrontadas com uma perda para a qual nunca se está preparado. No Fogo, o tempo pareceu parar, e, durante alguns dias, um país inteiro parou com ele.
Foi precisamente no meio dessa dor que vimos emergir aquilo que tantas vezes define a grandeza de um povo. Vimos uma ilha unir-se, vimos famílias ampararem outras famílias, vizinhos cuidarem de vizinhos, comunidades abrirem os braços a quem mais precisava, instituições mobilizarem-se e pessoas colocarem de lado as suas próprias vidas para estar junto daqueles que tinham acabado de perder tanto. Vimos solidariedade, generosidade, coragem, dignidade, entreajuda e um extraordinário sentido de comunidade.
Não existe força capaz de apagar a dor de perder alguém, e reerguer-se não significa esquecer, nem deixar para trás aqueles que partiram. Significa encontrar forças para continuar a caminhar levando-os connosco, cuidar de quem ficou e reconstruir, pouco a pouco, aquilo que a tragédia interrompeu.
O povo do Fogo conhece profundamente o significado de recomeçar. Numa ilha moldada pela força da natureza e por gerações habituadas a reconstruir perante a adversidade, existe uma resistência que não se confunde com ausência de sofrimento. É precisamente o contrário, é sofrer profundamente e, ainda assim, encontrar dentro da comunidade a força necessária para voltar a levantar quem caiu.
Talvez seja essa uma das formas mais puras de solidariedade, a de quando ninguém pergunta de quem é a dor antes de decidir ajudar a carregá-la.
Ao longo destes mês, o Fogo mostrou a Cabo Verde que uma comunidade não se mede apenas pela forma como celebra os seus melhores momentos, mas sim pela maneira como protege os seus nos piores. Pela mão que se estende, pela porta que se abre, pelo abraço que ampara, pelo silêncio que acompanha e pela presença de quem simplesmente se recusa a deixar alguém sozinho.
Para a Fundação Carlos Albertino Veiga, o Orgulho Nacional deste mês não poderia pertencer a uma única pessoa. Pertence a uma ilha inteira, pertence às famílias, às comunidades, aos profissionais, às instituições, aos voluntários e a todos aqueles que, mesmo carregando a sua própria dor, encontraram forças para ajudar a carregar a dor dos outros.
Este mês, o nosso Orgulho Nacional é o povo do Fogo, não porque não caiu, não porque não chorou, não porque a dor passou, mas porque, no momento em que tantos precisavam de amparo, uma ilha inteira escolheu levantar-se em conjunto.



