
Há povos que são lembrados pela força dos seus exércitos, pela dimensão dos seus territórios ou pela riqueza dos seus recursos. E há povos que se afirmam pela grandeza silenciosa do seu carácter. Cabo Verde pertence a essa segunda categoria.
Nas recentes eleições, mais uma vez, o país falou pela voz serena do seu povo. Sem sobressaltos, sem medo e sem ruptura. Com paixão, como é próprio da democracia viva, mas também com respeito pelas instituições, pelos resultados e pela legitimidade de cada órgão e de cada posição divergente.
Num tempo em que demasiadas democracias se deixam ferir pela intolerância, pela radicalização e pela desconfiança, os cabo-verdianos voltaram a lembrar que a democracia não é apenas um sistema político. É uma cultura. É uma forma de convivência. É a capacidade de discordar sem destruir, de disputar sem odiar e de escolher sem deixar de pertencer à mesma comunidade nacional.
Cabo Verde celebra 51 anos de independência, não obstante o Povo de Cabo Verde tem mais de cinco séculos de história, encontros, resistências, partidas e reencontros. Muito antes da República, já existia esta alma coletiva moldada pelo mar, pela mistura, pela resiliência e pela capacidade rara de transformar dificuldades em esperança.
É essa profundidade histórica que nos torna mais do que um Estado. É isso que faz de nós uma verdadeira Nação.
Talvez por sermos ilhas tenhamos aprendido cedo que nenhum futuro se constrói sozinho. Que o mar separa, mas também ensina o valor da travessia e do encontro. E que o destino coletivo vale sempre mais do que as vitórias momentâneas. Ao longo da nossa história recente, a alternância democrática deixou de ser exceção para se tornar identidade. Não como sinal de fragilidade, mas como prova de maturidade e confiança.
Neste mês, a Fundação Carlos Albertino Veiga presta homenagem não a uma personalidade individual, mas ao maior património da República: o Povo de Cabo Verde.
Um povo pequeno em território, mas imenso em exemplo. Um povo que continua a mostrar a África e ao mundo que a democracia pode ser firme sem ser agressiva, plural sem ser fragmentada e apaixonada sem perder a dignidade. Um povo que, há mais de 500 anos, aprende a viver junto e que, por isso mesmo, continua a merecer o nome maior de Nação.



